MATERIALES ADICIONALES
Acceso y Calidad
de Servicos Públicos
CASO DO BRASIL: CAT: CONHECER; ANALISAR E TRANSFORMAR
Naidison de Quintella Baptista
I - ELEMENTOS
DO CONTEXTO
A experiência aqui
relatada se desenvolve na Bahia – Nordeste do Brasil, região semiárida, área rural, onde a pobreza se manifesta, se
enraíza e se reproduz através de vários
fatores, na sua maioria econômicos, políticos e culturais. Analisemos alguns:
- No campo produtivo
a) terra
concentrada nas mãos de poucos e uma multiplicidade sem par de sem terra, pequenos e mini-fundiários, sem ou com posse de terra insuficiente.
b) Acesso
ao crédito burocratizado, que o inviabiliza.
c) Assistência
técnica desvinculada da realidade do semi-árido, implementando uma proposta
técnica que não visa viabilizar o semi-árido, através de uma convivência com o
mesmo.
d) Pouco
incentivo à poupança e a iniciativas associativas de produção, beneficiamento e
comercialização.
- No campo da educação
a) Escola
rural sem qualidade e inadequada à realidade do campo, desvalorizando sua vida,
sua cultura, seus valores e modos de ser.
b) Professores sem acesso a processos
sistemáticos de formação;
c) Poder
Público desinteressado em investir em educação.
d) Qualidade
da escola e da educação identificada simplesmente com cursos, prédios, mais móveis e equipamentos sem
discutir a questão do sentido da escola e seu objetivo político de estar ou não
a serviço de processos includentes ou excludentes de desenvolvimento..
e) A
escola e a educação ainda não ocupam um lugar de destaque na agenda dos
movimentos sociais, dos sindicatos..
- Fatores culturais e sociais
A maior parte do público pobre da região tem suas
raízes na escravatura. Culturalmente, todos aprenderam proibições, cumprimento
de ordens, obediência, nunca a cidadania, a criatividade. Até seu mundo
religioso era proibido e considerado pecaminoso.
. Entre outros fatores, corroboram para
manutenção desse quadro de subserviência:
a) o
clientelismo político, que vincula os poucos serviços público existentes à
vontade benevolente dos políticos, ao sistema do favor e da dádiva; os serviços
são entendidos como doação dos políticos e deverão ser retribuídos pelos votos
das pessoas.
b) a
cultura do medo “de dizer sua palavra”;
c) uma
justiça ainda lenta;.
- Atuação dos vários atores
a) Há
atuação das três esferas do poder executivo (federal, estadual e municipal). Na
maioria das vezes desarticuladamente e de forma pontual. São projetos e não
políticas. Outras vezes, como no Programa Estadual de Erradicação do Trabalho
Infantil, atuam num nível razoável de interrelação entre si e com a sociedade
civil, gerando práticas de democracia.
b) O
poder judiciário, em alguns lugares, atua gerando empoderamento, quando
responde a demandas de controle social de políticas e projetos desenvolvidos na
área.Em outros municípios, é simplesmente ausente.
c) Os
espaços oficiais de construção e controle de políticas, como os Conselhos
Paritários, alguns são controlados pelo poder; em outros, funcionam construindo
e controlando efetivamente políticas e programas públicos.
d) As
organizações da sociedade civil, com nível incipiente a médio de articulação se
apresentam: De um lado, com crescente potencialidade de diálogo com o
poder público, fortalecendo-se e abrindo-se para um debate de construção comum;
De outro, ainda tributárias de uma mentalidade fechada, que as faz
identificar em si mesmas todas as respostas aos problemas, ignorando a
potencialidade dos outros, especialmente do Poder Público;
e) Organismos
externos obedecem, via de regra, à mesma lógica: centram-se exclusivamente nos
órgãos oficiais, não incentivando o diálogo e
interrelação sociedade civil e poder público; assim, reforçam os esquemas de poder existentes,
que não geram empoderamento dos pobres; os exemplos diferentes ainda são
raros..
f)
Alguns organismos, como UNICEF, OIT, se esmeram por
incentivar o diálogo , o inter-relacionamento
poder público e sociedade civil e até atuam na intermediação de
processos.
II – O
PROJETO CAT: CONHECER - ANALISAR E TRANSFORMAR.
1. O
MOC e seu processo de trabalho.
É neste contexto intensamente
dialético e contraditório que se desenvolve a experiência do CAT, originária de
iniciativas do MOC - Movimento de Organização Comunitária e dos movimentos
sociais da região sisaleira da Bahia. .
O
Movimento de Organização Comunitária (MOC) é uma sociedade civil, sem fins
lucrativos, de natureza beneficente, considerado de utilidade pública
municipal, estadual e federal. Desde sua fundação em 1967, o MOC direcionou sua
atuação às populações menos favorecidas, discriminadas, quer da periferia
urbana, quer de comunidades rurais, indistintamente suscitando o aparecimento
de associações e organizações comunitárias rurais e urbanas. Era e é intenção do MOC ajudar as populações
a se organizar e, assim, descobrir e ocupar seu lugar na sociedade.
a) Missão
Contribuir
para o desenvolvimento integral, participativo e ecologicamente sustentável da
sociedade humana, através de capacitação, assessoria educativa, incentivo e
apoio a projetos referenciais, buscando o fortalecimento da cidadania, a
melhoria da qualidade de vida e a erradicação da exclusão.
b)Público-alvo
Órgãos
paritários de gestão, trabalhadoras e trabalhadores rurais, pequenos produtores
familiares rurais e urbanos, professores rurais, excluídos dos meios de
produção, organizações populares, crianças e adolescentes em situação de risco
social.
c) Estratégia de ação
O MOC atua, hoje, em cerca de 30 municípios
no semi-árido baiano, com uma perspectiva educativa. O essencial não é apenas
fazer coisas, mas sim catalisar os grupos para que eles efetivamente possam
fazer, construindo sua própria história e autonomia. Isso implica em
assessorar, capacitar e apoiar – elaborar materiais, estar presente, discutir,
refletir, criticar e ser criticado, propor – mas nunca substituir a ação dos
próprios grupos.
Na sua estratégia e ação metodológica o
MOC atua parceiramente com uma gama variada de atores da sociedade civil:
sindicatos de trabalhadores rurais, associações comunitárias , cooperativas de
produção e de crédito, movimentos de mulheres, Fóruns, sempre nas seguintes
linhas:
·
Fortalecimento e articulação das instituições, na
dimensão de clareza de seu projeto político, autonomia e interferência em políticas públicas;
·
Desenvolver
projetos referenciais, quer com
parceiros apenas da sociedade civil, quer com o poder público, se possível.
·
Ocupar
espaços institucionais que proporcionem possibilidades de diálogo com o Poder
Público e interferência em políticas;
·
Acompanhar
e fiscalizar projetos e políticas desenvolvidos na região;
Atua igualmente com Universidades, Prefeituras Municipais,
o próprio Estado, no desenvolvimento de ações comuns.
.
2.Origens
do CAT..
O
MOC analisando a escola pública rural sentiu a
necessidade de nela intervir , contribuindo com sua qualidade, na linha de:
·
valorizar a cultura, realidade e mundo rural;
·
atuar como instrumento do desenvolvimento local
·
desenvolver o senso critico e cidadania das crianças;
·
envolver os pais e a comunidade no seu que-fazer;
·
resgatar a auto-estima da vida rural.
Pela sua
filosofia de ação, o MOC deveria envolver o Poder Público na proposta de
trabalho. Além disso, era impossível realizar o projeto sem as Prefeituras
Municipais, pois a rede municipal de ensino é responsabilidade das mesmas;
politicamente seria incorreto desresponsabilizá-las; Ao mesmo tempo, era
importante envolver a Universidade.
Daí nasceu
a parceria no projeto, inicialmente no âmbito na informalidade e hoje regida
por um contrato que determina as obrigações e direitos de cada um dos
parceiros.
3.
Objetivos da proposta
·
Atuar na formação de professores rurais, para uma
ação educativa voltada para o desenvolvimento, numa metodologia que valorize a
natureza, o homem e mulher do campo, seu trabalho e sua cultura;
·
Contribuir para a formulação e implementação de
políticas educacionais para as escolas rurais, considerando e valorizando a
realidade rural.
4. Princípios
- Todos são aprendizes e sujeitos
da ação educativa: professores, pais e alunos, cada qual a partir do seu
lugar na vida e na escola.
- A pesquisa é um elemento básico e
fundamental do trabalho escolar.
- A realidade das famílias, da natureza, da vida da comunidade, do
processo produtivo, da cultura, dos serviços públicos é objeto da pesquisa e, a partir dela,
da construção do conhecimento.
- Partir, na construção do conhecimento, do concreto e localizado, para o
abstrato e mais universal. Parte-se da terra, da água, da colheita, das
pedras, do que se produz, para o mundo da matemática, das ciências, da
linguagem.
- Investimento no senso
critico das crianças a partir da
análise das coisas pequenas e concretas que a circundam;
- Valorização, como elementos básicos para a produção do conhecimento, dos
fenômenos e seres da área rural: terra, água, animais, plantas etc;
- Metodologia.
Embasada
nos princípios do educador e pedagogo Paulo Freire, a metodologia se desenvolve
através dos três pilares da: ação... Reflexão...Ação, envolvendo os três
sujeitos: família, escola e comunidade.
Assim, são
os seguintes os passos metodológicos:
CONHECER - as crianças são incentivadas e
orientadas, como trabalho escolar, a desenvolver pesquisas sobre a realidade
local a partir de um tema gerador (ex. água para consumo humano:
quem tem acesso, que
tipo de acesso, que tipo de tratamento é dado á água etc; serviços públicos;
que tipo de serviços
existe: escola, postos de saúde, telefone, estradas; sua qualidade e tipo de
atendimento; cultura: festas,músicas, tradições, remédios,
história da própria comunidade.
ANALISAR
-com os alunos, o professor processa uma síntese e reflexão sobre a
realidade pesquisada. É o momento de entender criticamente a realidade
e de construir/ampliar o conhecimento. Inserem-se os conteúdos curriculares. A
partir da realidade conhecida, as crianças aprendem ciências, geografia,
matemática, história etc.
TRANSFORMAR
- a partir do analisar, as crianças e professores definem
aspectos da realidade estudada sobre os quais, ao nível das crianças e com a
participação efetiva das mesmas, a escola e a comunidade querem intervir para
modificar.Ex. melhor conservação dos bens públicos; diálogo com o poder público
na busca de serviços melhores etc.
6. Processo
de Formação
a) Filosofia
e Metodologia: encontros e treinamentos com ênfase na metodologia e
filosofia do projeto, com momentos, a cada unidade didática, de avaliação e
planejamento pedagógico processual e constante, envolvendo os coordenadores e,
a partir destes, todos nos professores.
b) Conteúdos
Específicos: dias de estudo e oficinas temáticas para
aprofundamento de temas e aspectos das disciplinas em que os professores
manifestam mais carência e sob sua solicitação.
7. ASPECTOS
INOVADORES E EMPODERADORES.
7.1. Elementos
metodológicos importantes
a) Construir
e transmitir o conhecimento a partir da realidade do aluno e de sua família.A
realidade, assim, invade a escola, que se torna viva, atraente. A realidade da
vida é objeto da pesquisa. A escola sai de dentro dos seus muros;
b) Desenvolver
o senso critico do aluno e do professor, através do processo de conhecimento e
análise da realidade. Formação da cidadania efetiva e concreta.
c) Envolver
realmente a família na ação educativa da escola; são três os sujeitos:
professor, aluno e pais (família);
d) Mudanças
na comunidade provocadas pelas análises das pesquisas feitas pelas crianças,
que conduzem a melhoria de qualidade de vida das comunidades;
e) Proposta
metodológica que se adequa a qualquer realidade, seja ela urbana ou rural.
f)
Projeto desenvolvido em parceria entre ONGS.
Prefeituras Municipais e Universidade, construído executado e avaliado
parceiramente, prolongando-se por três diferentes gestões municipais e
universitárias;
7.2. Elementos
de empoderamento
a) Uma
educação de qualidade leva ao empoderamento das pessoas e grupos que dela
participam. Isso está acontecendo na experiência. Pais e crianças que
experimentaram o CAT exigem de professores novos que se integrem à mesma;
recuperam sua auto estima de ser camponeses.
b) Crianças
são empoderadas quando conhecem melhor sua própria realidade e descobrem sua
capacidade, em conjunto, de modifica-la para melhor; quando descobrem o papel
da escola na melhoria concreta das condições de vida.
c) Pais
e Mães se aproximam da escola e controlam seu funcionamento e seu serviço;
d) O
desenvolvimento do senso critico das pessoas é elemento fundamental de
empoderamento;
e) A
escola descobre seu papel a serviço de um desenvolvimento sustentável,
includente, para todos;
8.
QUESTÕES E LIMITES.
a) o
MOC assumir mais ainda a dimensão do trabalho em escala; formar mais e fazer
menos.
b) As
Prefeituras assumirem mais como linha de capacitação para todos os professores,
disponibilizando as estruturas e pessoal necessário para tal;
c) Os
Movimentos Sociais assumirem o projeto como deles, fiscaliza-lo, cobrar sua
ampliação e implementação;
d) A
Universidade dedicar-se mais ao estudo e aprofundamento de metodologias e
serviços que possam ampliar o leque desta ação.
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