MATERIALES ADICIONALES
MITOS E
REALIDADES SOBRE INCLUSÃO SOCIAL, PARTICIPAÇÃO CIDADÃ E DESENVOLVIMENTO LOCAL
uma
discussão sobre contextos e conceitos
Silvio Caccia Bava
1. Um marco de referência para a discussão
Este texto se propõe a explorar um tema amplo e
difícil, mas que traz implicações diretas para as ONGs do Sul. Diz respeito a
um campo de disputas quanto às identidades, compromissos, alianças,
perspectivas, destas ONGs no cenário global atual. Um campo de disputas, é
preciso reconhecer desde já, assimétrico, no qual a capacidade de produção de
conhecimentos e a capacidade de comunicação são elementos estratégicos.
A pergunta é: como são construídas as agendas sociais
nas quais se engajam as ONGs e que implicações isso tem com os limites e
potencialidades de nossos trabalhos enquanto agentes de mudança social?
Nesse momento há uma inquietação muito grande da
parte de uma parcela das ONGs brasileiras. Nos anos 90 elas viram seu léxico,
articulado em torno dos temas da cidadania, apropriado por empresas, governos e
organismos multilaterais. Ao mesmo tempo outras questões penetraram seu
universo: eficiência e eficácia, indicadores de resultados, planejamento
estratégico e gerência por objetivos, temas do mundo da administração das
empresas. Também os governos inovaram no discurso e adotaram uma nova postura:
buscam ONGs para execução de projetos sociais, apresentam propostas de
parcerias com a sociedade civil como recurso para a solução dos problemas
sociais.
Neste novo cenário neoliberal dos anos 90 – marcado
pela desconstrução de direitos e por políticas assistenciais, focalizadas e
compensatórias – criou-se uma linguagem que acaba por se impor ao conjunto da
sociedade, gerando um campo de indeterminações, uma zona cinzenta, uma mistura
de identidades, na qual a situação atual das ONGs que se identificam enquanto
grupos de cidadãos que se organizam para a defesa e ampliação de direitos, para
dizer o menos, tornou-se bastante difícil e complexa.
Os novos discursos assumidos por empresas e pelo
Estado aproximam estas instituições do léxico das ONGs de tal forma que muitas
vezes suas identidades se confundem. Nas palavras de Paulo Arantes: “De uns
tempos para cá, autoridades governamentais desandaram a gesticular e arengar
como se fossem militantes de uma ONG, de todas as ONGs, misteriosamente eleitos
pela mão invisível do destino para advogar a boa causa da sociedade, ocupando,
porém, graças sabe-se lá a que manobras astuciosas da razão, postos-chave no
aparelho do Estado, sobretudo os diretamente concernidos por uma enteléquia
cívica denominada “o social”. Depois de referir-se às novas atitudes do Estado,
o autor referido observa que: “também as empresas, por uma espécie de
esquizofrenia programada, principiaram a se comportar em público como se fossem
de verdade organizações não lucrativas! No fundo, se ainda distribuem
dividendos para seus acionistas, é por mera e incontrolável decorrência técnica
de sua maior eficácia no uso de bens escassos. Em primeiro lugar viriam os
incontornáveis direitos de cidadania – como seria de esperar dessas verdadeiras
centrais de recursos à disposição da sociedade.”
Mas a inquietação destas ONGs não é com uma confusão
semântica. Ela vai para mais além do desafio de preservarem suas identidades,
seus projetos, sua missão enquanto educadores populares comprometidos com a
construção da cidadania e a radicalização da democracia. A inquietação diz
respeito, principalmente, à capacidade dos novos discursos gerados pelos
governos e empresas – e assimilados por grande parte da sociedade civil organizada
– confundirem o campo das disputas de interesses e dos conflitos políticos em
nossa sociedade, apresentarem propostas impossíveis e mesmo assim se afirmarem
como o discurso hegemônico.
Surpreende igualmente a incapacidade destas ONGs
elaborarem criticamente esse novo discurso e criarem respostas que reponham a
dimensão da disputa, do conflito, na esfera pública, a disputa por recursos
públicos e políticas, como o caminho para a superação dos problemas sociais.
As dificuldades destas ONGs não são apenas suas. São
de todo um conjunto de atores sociais que se posicionam na contramão de um
cenário em que as políticas nacionais acentuam os processos de exclusão social
e a desigualdade pela via da flexibilização das relações de trabalho, pela
redução da cobertura e da qualidade das políticas sociais, pelo aumento do
desemprego, pela redução do salário.
O que está em jogo é a destinação da receita pública
e o desenho das políticas públicas como respostas do governo ao acirramento da
crise social. Essa resposta hoje tem a marca da exclusão social, ela se dá pela
via da implementação de políticas de caráter emergencial e destinadas apenas
aos grupos mais vulneráveis. E como seu alcance é muito limitado, os governos convocam a “parceria” das ONGs e
das empresas para “se engajarem na luta contra a exclusão social”.
Existe uma coerência nesta estratégia, uma vez que a
restrição imposta às políticas sociais e aos direitos de cidadania é condição
para viabilizar o modelo econômico atual. Neste cenário, a proposta de “mudança social”, bandeira das
ONGs, fica confinada aos limites de melhorar um pouco o que aí está, mantidas
as condições atuais de temperatura e pressão.
E é justamente esse “melhorar um pouco o que aí está”
que se tornou o fator limitativo das escolhas quanto aos engajamentos que
definem a identidade das ONGs. O que dá margem à criação, no plano simbólico,
da proposta de um novo campo de parcerias e alianças que antes não existia. A
agenda tanto dos governos locais progressistas como das ONGs passa hoje por uma
redução drástica de seu horizonte utópico.
Para aqueles que antes se referenciavam no socialismo e numa ética que,
entre outros elementos, defende a justiça social, a equidade, a participação
ativa da cidadania na condução e fiscalização das políticas públicas, a
situação atual é questionadora desta identidade.
Essa agenda do “melhorar um pouco o que aí está” pode
ser ilustrada com exemplos como
bolsa-escola, renda mínima,
micro-crédito, orçamento participativo, programas de geração de emprego e
renda, todos projetos articulados a
discursos que visam promover a inclusão social, o desenvolvimento local, a
participação cidadã.
Um olhar mesmo que superficial sobre a amplitude da
cobertura destas políticas, sobre os recursos a elas destinados, sobre os resultados a que chegam, permite
dizer que seus propósitos estão longe de ser alcançados. Programas de
desenvolvimento local que não desenvolvem, programas de inclusão social que não
incluem, programas de participação cidadã que não socializam o poder. Este novo
desenho do papel do Estado e das políticas sociais opera uma conversão nos
significados dos termos e, nesta nova matriz discursiva, transforma as demandas
por direitos em carências. A arena pública e a política são substituídas pela
filantropia e pelo assistencialismo.
Não é preciso dizer que neste contexto qualquer
discurso de crítica ao modelo atual é visto como uma ameaça à estabilidade
política e econômica e combatido abertamente. A expectativa por parte dos
governos é a do consentimento passivo dos cidadãos. E para que isso se dê é
mister desmontar as capacidades das instituições e movimentos sociais que
possam elaborar um pensamento crítico, autônomo, de busca através da criação,
das inovações, de caminhos alternativos, de outras propostas de políticas,
outros paradigmas para o desenvolvimento. Esse comportamento repressivo pode
ser observado tanto no plano internacional, na forma como foram reprimidas as
manifestações de protesto contra as políticas do Consenso de Washington, como
as de Seattle e Genova, mas também no plano nacional. No caso brasileiro as
manifestações públicas e movimentos
como o sindicalismo combativo e os movimentos dos sem-terra sofrem fortes
ataques.
Mas os enfrentamentos não se dão somente nas praças
públicas. Eles se dão também no campo da produção de conhecimentos, na disputa
de significados, na determinação do campo dos conflitos, na configuração do que
queremos como futuro. E nunca é demais lembrar que quando se tem o poder, é
possível também orientar a produção das idéias.
Temas como o do Terceiro Setor, as empresas com
responsabilidade social, as alianças e parcerias, se introduziram e
enraizaram-se no discurso de muitos que antes se reconheciam por outras
identidades. Conceitos como os de desenvolvimento local, participação cidadã,
inclusão social, empoderamento da sociedade civil, foram sendo criados ou
resignificados, ganhando contornos mais compatíveis com a matriz discursiva
de governos e empresas que deles se
apropriam e com eles se apresentam como atores cada vez mais comprometidos com
a solução dos problemas sociais.
A dificuldade está em compreender o alcance e as
conseqüências desse novo discurso. A questão é “como nos referenciar em um
mundo que não lhe cessa de falar de “cidadania” e lhe retira o pouco poder de
que você dispõe em seu trabalho e na
sua vida?”.
Esse novo léxico não é nacional. Ele pode ser visto
como uma resposta ao aumento da desigualdade no plano mundial e à deterioração
das condições de vida em sociedade na grande maioria dos países do mundo. A
radicalização dos movimentos internacionais e nacionais de contestação ao
modelo de globalização dos mercados passou a ameaçar a estabilidade política
das classes dirigentes e a continuidade política do modelo neoliberal, o que
pôde ser visto pelas sucessivas crises que abalaram, desde o início dos anos
90, México, o Brasil e a Argentina, para ficarmos apenas na América Latina.
Esse novo discurso é uma resposta à crise política e
de legitimidade do padrão de acumulação que desde de meados dos anos 70 vem
sendo impulsionado pelos organismos multilaterais – a Organização Mundial do Comércio, o Fundo Monetário Internacional,
o Banco Mundial – e imposto aos países do Sul através do receituário a que se
convencionou chamar de Consenso de Washington.
Nas palavras de um dos teóricos do chamado Terceiro
Setor – Jeremy Rifkin – essa crise social e de legitimidade política dos
governos precisa ser respondida o quanto antes. E aí entra o papel das alianças
e parcerias no interior da sociedade civil, vistas como cada vez mais
importantes pois se o chamado Terceiro Setor não ocupar esse espaço “será
praticamente impossível tratar delas (das questões sociais) daqui a dez anos;
vozes de raiva, de desespero e do ressentimento serão tão fortes que unicamente
as ideologias políticas extremas terão
êxito”.
Esse apelo de Rifkin é secundado por ninguém menos
que o presidente do Banco Mundial – James Wolfensohn – que em sua fala anual
aos governadores do Banco, em 1997, adverte para os riscos do aprofundamento da
pobreza e da desigualdade:
“Este - o
desafio da inclusão - é o principal desafio do desenvolvimento em nossa
era...Os senhores e eu e todos nós nesta sala - os privilegiados no mundo
industrial e em desenvolvimento - podemos optar por ignorá-lo. Podemos
concentrar-nos apenas nos sucessos. Podemos viver com um pouco mais de crime,
com algumas guerras a mais, com ar um pouco mais poluído. Podemos nos isolar de
partes inteiras do mundo para as quais a crise é real e diária mas que para o
resto de nós é em grande parte invisível. Mas devemos reconhecer que estamos
vivendo com uma bomba-relógio e que se não tomarmos medidas agora ela pode
explodir na face dos nossos filhos”.
De fato, depois das crises
políticas que se sucederam em vários países nos anos 90 em decorrência da
imposição do modelo neoliberal, a questão da estabilidade política dos regimes
e governos ganha mais importância, abrindo campo para a elaboração de novos
discursos como o do combate à pobreza, o da good governance, o do
fortalecimento institucional de governos e instituições da sociedade civil; e,
nas palavras do Banco, da promoção de parcerias e coalizões baseadas na
cooperação de todos: Nações Unidas, governos, entidades multilaterais, setor
privado e sociedade civil.
É importante observar, para fins
de nossa discussão, que esses e outros temas foram o foco dos discursos anuais
de Wolfensohn dirigidos aos governadores do Banco Mundial. Em 1995, o desafio
do desenvolvimento; em 1996, a importância da geração de conhecimentos e do combate à corrupção; em
1997, o desafio da inclusão social; em 1998, o combate à pobreza e a redução
das disparidades sociais; em 1999, o tema das parcerias e coalizões; em 2000, o tema da participação cidadã e da criação e
disseminação do conhecimento.
Este último tópico – o da criação
e disseminação do conhecimento – é especialmente importante para discutirmos a
questão da agenda social internacional não só porque mobiliza recursos sem
paralelo, mas porque cria uma referência internacional que até o momento não
tem um “alter ego” crítico.
Talvez o Fórum Social Mundial esteja buscando tornar-se esta referência
crítica, assim como nos anos 90 os Fóruns Globais organizados pela sociedade
civil quando da ocorrência da Rio 92 e das demais conferências mundiais
organizadas pelas Nações Unidas tentaram fazê-lo. Mas o FSM não produz
conhecimentos, apenas publiciza as análises que se fazem no campo da sociedade
civil.
Todos esses temas que foram objeto
de atenção dos discursos do Presidente do Banco Mundial fazem atualmente parte
da agenda social das ONGs latinoamericanas, pode-se mesmo arriscar a hipótese
de que façam parte da agenda global das ONGs. E como se dá a ligação entre os
discursos de Wolfensohn e a agenda social das ONGs?
Evidentemente a questão da agenda
social mundial é de uma importância e uma abrangência muito maior que sua
influência sobre as ONGs. Ela de fato pretende pautar o campo no qual a disputa
de alternativas define também o campo do conflito social e a produção do conhecimento
na análise das questões sociais. Como vem ocorrendo, toda essa produção de
respostas às pressões da sociedade se orienta para dissociá-las das políticas
macro-econômicas, como se pode observar pelas análises dos principais
organismos das Nações Unidas, como é o PNUD por exemplo. O impacto de suas
publicações anuais que avaliam o estado do mundo é enorme. E temas como o
desenvolvimento humano e sustentável tornam-se referência obrigatória em todas
as discussões que envolvem a busca de novos paradigmas para a configuração das
sociedades futuras.
Todo ano o Banco Mundial publica seu “World
Development Report” (o relatório sobre o desenvolvimento do mundo), publicação
que se torna referencia obrigatória nos meios universitários e nas Nações
Unidas. Essa publicação tem o propósito de fixar os grandes temas que, durante
um certo tempo, ocuparão as agências especializadas da ONU, as universidades e,
mais além, a opinião pública.
Segundo Pierre Bordieu: “Estes lugares comuns – no
sentido aristotélico das noções ou teses com as quais se argumenta, mas que
sobre as quais não se argumenta nunca – devem o essencial de sua força de
convicção ao prestigio do lugar do qual emanam e ao fato de que circulando
intensamente, de Berlim a Buenos Aires e de Londres a Lisboa, estão presentes
simultaneamente por todos os lados. De fato, esses pensamentos são
retransmitidos com força por todos os lados por estas instancias pretensamente
neutras do pensamento neutro que são os grandes organismos internacionais:
Banco Mundial, Comissão Européia, Organização para a Cooperação e o
Desenvolvimento Econômico (OCDE). No que são secundados pelos laboratórios das
idéias conservadoras (Manhattam Institute, de Nova Iorque; Adam Smith
Institute, de Londres; Fondation Saint Simom, de Paris; Deutsche Bank Foundation, de Frankfurt),
pelas instituições de filantropia, pelas escolas de poder (Institut d´Études
Politiques, na França; London School of
Economics, na Inglaterra; Harvard Kennedy School of Government, nos EUA, etc) e
pelos grandes órgãos de imprensa”.
Em recente artigo no Le Monde Diplomatique,
Jean Ziegler atribui aos ideólogos do Banco Mundial um infatigável trabalho de
multiplicar teorias justificativas que, segundo ele, ao mapearem o campo do
conflito e identificarem as principais críticas e demandas da sociedade, as
trabalham e as transformam em propostas dissociadas de qualquer historicidade
que, no entanto, passam a ocupar o espaço do debate público sobre as questões
sociais.
“Em 1972 o Clube de Roma adverte
que o crescimento ilimitado levará à destruição do planeta, o Banco reconhece e
valida esta critica e produz a teoria do desenvolvimento integrado. O grupo de
pesquisadores coordenado por Gro Brundtland
e Willy Brandt, a seguir, critica o economicismo do Banco, reivindicando
outros parâmetros para medir o desenvolvimento, tais como saúde e educação. E o
Banco reage apresentando a teoria do desenvolvimento humano. Num novo momento o
movimento ecológico ganha importância e influência em toda a Europa e América
do Norte, sua critica é sobre as conseqüências presentes e futuras da ação econômica sobre o meio ambiente. Os
ideólogos da Banco produzem a teoria do desenvolvimento sustentável. Em 1993,
na Conferencia sobre Direitos Humanos, em Viena, as nações do Terceiro Mundo –
contra os americanos e certos países europeus – impõem o reconhecimento dos
direitos econômicos, sociais e culturais. O Banco se coloca na vanguarda do
combate pela realização dos direitos econômicos, sociais e culturais, o que
pode ser comprovado em setembro de 2000, pelo discurso de seu presidente em
Praga.
Como compreender este jogo de
poder, como interpretar esta disputa de significados e seu impacto sobre as
instituições de produção do conhecimento, como identificar os processos que
fazem com que essa agenda que se constrói neste jogo de forças internacional
seja assumida pelas ONGs?
Talvez a chave que nos permita a
compreensão de todo esse processo nos tenha sido dada por Ziegler e Bordieu,
quando eles identificam o papel do Banco Mundial como produtor de ideologia.
Ideologia é aquilo que tem por função, ao se impor como discurso racional, de
impedir a interrogação sobre os fundamentos, a legitimidade e a evolução da
ordem social, como nos ensina Claude Lefort.
Por esta via de explicação as causas
do aprofundamento da pobreza e da desigualdade no mundo são deixadas de lado, a
globalização dos mercados nos moldes do Consenso de Washington passa a ser
compreendida como um processo inexorável, as políticas possíveis para se
enfrentar as mazelas do mundo são as apontadas em uma agenda social mundial
para a qual a contribuição do Banco Mundial tem um papel determinante.
E por que o Banco Mundial, que é antes de mais nada um banco, teria
tanto interesse em produzir análises e propostas que busquem organizar o debate
público mundial em torno de um certo enfoque sobre as alternativas de
desenvolvimento e da superação da crise social?
Este complexo jogo da disputa dos significados faz parte de um jogo mais
amplo de poder. Conforme nos adverte Francisco de Oliveira: “Impor a agenda não
significa necessariamente ter êxito, ganhar a disputa; antes, significa criar
um campo específico dentro do qual o adversário é obrigado a mover-se. É
evidente que o adversário, em seus movimentos, tenta, por sua vez, desvencilhar-se
da pauta e sair fora da agenda que lhe é oferecida/imposta. É nesse
intercâmbio, desigual, que se estrutura o próprio conflito, ou o jogo da
política. Há, pois, na política, uma permanente mudança de qualidade. A força
de uma invenção se expressa na capacidade de manter o adversário nos limites do
campo criado pela proposta/resposta, e isto confere estabilidade ao campo
político, permanecendo a pauta e a agenda das questões”.
É inegável que na atual conjuntura
a agenda social mundial tem sido mantida e renovada nos termos de
complementariedade aos programas de ajuste estrutural das economias dos países
pobres, segundo o modelo identificado como sendo o do Consenso de Washington.
Mas como se propaga essa ideologia ao ponto da agenda social mundial que dela
decorre ser assumida pelas ONGs do Sul?
Aqui cabe referir a importância
das redes de instituições que se conectam e interagem seja na produção da
agenda social mundial, seja no financiamento dos trabalhos das ONGs do Sul.
Essa cadeia de relações é assimétrica, possui elos mais fortes e elos mais
fracos.
No seu lado mais forte estão as
instituições multilaterais que contam com vastos recursos intelectuais,
financeiros e de comunicação. Entre elas se destacam o Banco Mundial,
organismos vários das Nações Unidas, a
União Européia. Ainda nesta parte mais forte da cadeia de relações com as ONGs
estão os governos nacionais dos países desenvolvidos (cada vez mais
conservadores), que interagem, influenciam e são influenciados pela produção e
pelas propostas das agencias multilaterais. Estes governos nacionais, por sua
vez, exercem uma influencia crescente sobre as ONGs do Norte, agencias privadas
de cooperação existentes em seus países e que dependem cada vez mais dos
recursos públicos repassados pelos governos. No elo mais fraco desta cadeia
estão as ONGs do Sul, que dependem dos
recursos financeiros do Norte e, pelas limitações da própria agenda
internacional, que por exemplo não financia pesquisas, não têm conseguido desenvolver análises
críticas da realidade social e da produção teórica que orienta a construção da
agenda social global.
Em um texto recente Bebbington
chama a atenção de que este tema é bem mais abrangente, trata da relação entre
o poder e a comunicação (à la Habermas), ou entre o poder e o conhecimento (à
la Foucault). “De Habermas (1984) temos a idéia de que não há nenhuma forma de
comunicação que não seja distorcida pelas relações de poder; e de Foucault
(1980) temos a noção de que existem relações de poder inscritas em toda forma de
conhecimento”.
Em um recente estudo promovido
pela Associação Latinoamericana de Organizações de Promoção – ALOP, uma das
mais importantes redes de ONGs de Desenvolvimento, a questão da fragilidade das
ONGDs enquanto um elo da cadeia de instituições do mundo da cooperação é
reconhecida e identificada como uma limitação dada pelas dificuldades de
desenvolver uma análise crítica da realidade social e de produzir propostas
alternativas. Para isso consideram como uma das mais importantes necessidades
reforçar sua capacidade de pesquisa e sistematização.
“Hoje torna-se evidente a
necessidade de recolocar a questão dos paradigmas do desenvolvimento e de
pensar novas estratégias para enfrentar realidades mais complexas...em muitos
casos será necessário reconceituar os temas, independentemente dos marcos
utilizados pelos modelos imperantes...há temas que são tratados isoladamente do
seu contexto, como o da pobreza; outros que desapareceram da agenda social e
que precisam ser retomados, como o da concentração da riqueza ou o das
estruturas nacionais e regionais de poder...”
Essa proposta de pensar novas estratégias, de buscar reconceituar certos
temas e reintroduzir outros no debate, de questionar os paradigmas impostos por
uma agenda de desenvolvimento, tem a maior importância. Ela permite sair do
campo previamente demarcado do debate, do conflito, e criar um novo campo de
disputas onde os termos do debate possam ser de nova qualidade, introduzindo
questões como a redistribuição da riqueza e a socialização do poder, ou como
diz Boaventura de Souza Santos, a democratização da democracia.
Estas novas propostas são
essenciais para que as ONGs possam superar esta zona cinzenta de
indeterminações a que nos referimos no início e atualizar sua dimensão de
agentes sociais de mudança. A análise crítica desta agenda social global poderá
permitir encontrar novos caminhos para recuperar a esfera pública e a política
como espaço da resolução dos conflitos sociais; poderá permitir mapear e
identificar quais os atores sociais que podem configurar um campo de alianças
na perspectiva da mudança social e quais atores sociais que hoje se apresentam
como “parceiros”, de fato não o são. E para isso as ONGs terão de se perguntar
qual a sua agenda e quem são seus pontos de apoio, que atores coletivos
estimulam e defendem seus temas...
Com base nestas referências e na
perspectiva de discutir os limites e possibilidades de nossa agenda social,
serão tratados a seguir os temas desenvolvimento local, inclusão social e
participação cidadã.
2. O mito do desenvolvimento...
local
Durante os últimos 50 anos o mito do desenvolvimento
alimentou a esperança de mais de 3/4 da população do mundo. Ele acenava com a
possibilidade de que os países pobres pudessem tornar-se sociedades com altos
padrões de vida, sociedades desenvolvidas, à semelhança dos 24 países
capitalistas industrializados.
Este mito precisa ser questionado. Não faltam dados que permitam este
questionamento. A história recente da humanidade atesta a impossibilidade do
desenvolvimento para os países pobres. Ao menos nas condições atuais de
organização da produção e dos mercados, de acordo com o modelo atual da
globalização. Ao invés de trazer o desenvolvimento, este modelo se revelou
promotor da exclusão social, acelerado nas últimas décadas pelo desenvolvimento
tecnológico e pelo neoliberalismo.
Hoje, os 20% dos seres humanos que vivem nos países mais ricos consomem
86% dos bens produzidos pela humanidade. Os 20% que vivem nos países mais
pobres não consomem mais do que 1,3% do total. E o mais importante a observar
foi a acelerada tendência à concentração da renda e aumento da pobreza
verificada nas últimas décadas. Em 1960 a diferença de renda entre os 20% mais
ricos e os 20% mais pobres era de 30 para 1. Em 1995 essa diferença atinge a
proporção de 82 para 1.
Pode-se caracterizar uma verdadeira regressão na qualidade de vida das
maiorias, notadamente no Sul, mas também nos países do Norte. Abandonando os
critérios de renda média e
utilizando-se de uma metodologia que revela as desigualdades no interior
de cada país, o PNUD pôde demonstrar que nos países industrializados existem
hoje mais de 100 milhões de pessoas em situação de pobreza e com grandes
problemas de moradia. A porcentagem de
pobres varia de 7% a 17% da população total nestes países.
Mas a tendência ao crescimento da
pobreza e da exclusão se apresenta com toda a força e intensidade nos
países do Sul, países que se tornaram cada vez mais dependentes e vulneráveis à
dinâmica do mercado global, à mobilidade especulativa do capital financeiro, à
atuação das empresas transnacionais, ao protecionismo imposto pelos países mais
industrializados às suas indústrias e ao seu mercado.
De fato, o que os dados revelam é que está ocorrendo nos últimos 30 anos
uma regressão econômica nos países do Sul que afeta significativamente a
qualidade de vida de grande parte da sua população. Na África, por exemplo, o
consumo de uma família hoje é 20% menor que 25 anos atrás. Mais de 100 países
dentre aqueles considerados subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento
apresentaram uma queda na sua renda per capita no curso dos últimos 30
anos. Nada menos que 3 bilhões de
pessoas, dos 4,4 bilhões que habitam esta região do planeta, vivem hoje com
menos de US$ 2,00 por dia, considerado pelas Nações Unidas como o mínimo para a
sobrevivência.
Este modelo chega hoje ao extremo da promoção da
desigualdade. A soma dos bens das 300 pessoas mais ricas do mundo é igual ao
total dos bens dos 2,7 bilhões de seres humanos mais pobres, algo como 45% da
população mundial. Os indivíduos que tem condições de consumir produtos e
serviços são cerca de 1,8 bilhões. Os 4 bilhões remanescentes não possuem
capacidade de compra, estão fora do mercado.
Esta realidade é ignorada pela ideologia do
desenvolvimento, que continua a acenar com a possibilidade de um futuro
brilhante para os países agora chamados de “emergentes”. No que se sustenta
esta ideologia? Como explicar que continue tendo o poder de fascinação que
ainda hoje mantém?
A base em que se apóia a noção de desenvolvimento é a
idéia de que o progresso é inerente às
sociedades agrárias que transitam para sociedades industriais. Um tipo de
darwinismo evolucionista que assegura a toda e qualquer sociedade um futuro promissor.
Algo que poderia estar em seu DNA. O desenvolvimento da indústria, da
tecnologia, da produtividade, assegura o progresso. E o progresso tem um sentido único: ele leva ao desenvolvimento,
entendido como o reino da abundância, do consumo.
Um grande promotor do mito do desenvolvimento foi
Walter Rostow, professor do Massachusets Institute of Technology. Nos anos 60
ele afirmou que “os países evoluíam de uma sociedade tradicional, através de
estágios de acumulação e de crescimento de suas economias, para atingir um
estágio final de consumo de massa, o qual ele identificava como sendo a
conquista do desenvolvimento. Segundo ele, o ambiente no qual se dava este
desenvolvimento não tinha importância neste processo, seria apenas a
matéria-prima a ser consumida na marcha para o progresso e a felicidade. Depois
de Rostow, todos tecnocratas convenceram-se que podiam conquistar o
desenvolvimento. Eles somente necessitavam saber como aplicar corretamente as
teorias e políticas, criar valor agregado, acumular, crescer e induzir ao
consumo de massas”.
A crítica à noção de desenvolvimento elaborada por
Marilena Chauí aponta que esta noção “visa escamotear a história sob a
aparência de assumí-la... pressupõe-se um ponto fixo, idêntico e perfeito, que
é o ponto terminal de alguma realidade e ao qual ela deverá chegar normativamente.
O progresso, colocando a larva, e o desenvolvimento, colocando a
“boa forma” final, retiram da história aquilo que a constitui como história,
isto é, o inédito e a criação necessária de seu próprio tempo e
telos. Colocando algo antes do processo (o germe) ou depois do
processo (o desenvolvido), a ideologia tem sérios compromissos com os
autoritarismos, uma vez que a história de uma sociedade passa a ser regida por
algo que ela deve realizar a qualquer preço. Passa-se da história ao destino”.
Durante o período da guerra fria este mito do
desenvolvimento serviu como propulsor de uma política de controle de
territórios e mercados – a disputa
entre o bloco soviético e os países capitalistas industrializados pela
hegemonia mundial. A questão da ajuda para o desenvolvimento tornou-se um dos
principais eixos da geopolítica mundial, estendendo-se esta disputa para
regiões como a África e a América Latina. O Banco Mundial (fundado em 1944),
que leva o nome de Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento,
assim como bancos regionais como o Banco Interamericano de Desenvolvimento
(fundado em 1959) e o African Development Bank (fundado em 1964) são criados
como poderosos instrumentos de uma política de consolidação dos interesses
deste bloco de países capitalistas industrializados, liderados pelos Estados
Unidos.
Num certo sentido pode-se dizer que as políticas preconizadas pelo
Consenso de Washington são herdeiras e atualizam o mito do desenvolvimento. O
fim da guerra fria e a subordinação das instituições multilaterais às políticas
ditadas pela única superpotência mundial reduziram substancialmente a
importância da “ajuda para o desenvolvimento”, que hoje chega ao seu ponto mais
baixo, representando algo como 0,20% do PIB dos países industrializados, quando
na Rio 92 estes países assumiram o compromisso de comprometer 0,70% de seu PIB
nesta rubrica. Esta
política se torna agora dispensável como instrumento no jogo pelo poder e
controle dos territórios do tabuleiro mundial, como nos lembra Susan George.
Estratégia esta substituída pela política de endividamento crescente dos países
“emergentes”, a partir dos anos 80, que
por esta razão tiveram uma redução substancial em sua capacidade de elaborar
suas próprias estratégias de desenvolvimento.
Neste cenário reduz-se brutalmente a margem de negociação dos países
pobres, que se viram obrigados, pela via da necessidade de reestruturação de
suas dívidas junto ao FMI e ao Banco Mundial, a adotarem ajustes e políticas
macroeconômicas que abriram enormes oportunidades de ação para as grandes
corporações transnacionais do Norte e reduziram dramaticamente o papel do
Estado, particularmente nos setores sociais e agrícola. Os programas de ajuste
conduziram à privatização de importantes setores da economia, assim como à
liberalização do comércio e das regulações bancárias, apontando a um
crescimento baseado nas exportações, muitas vezes em detrimento da industria
local e do meio ambiente.
No final dos anos 90 se reconhecia amplamente que as receitas inspiradas
no Consenso de Washington, e impostas a tantos países em desenvolvimento,
estavam eivadas de sérios erros. As
crises econômicas e políticas sucessivas que ocorreram nos anos 90 em países
que seguiram fielmente a cartilha do Consenso de Washington – entre os quais
Indonésia, Rússia, Coréia do Sul, México, Brasil e Argentina – são um alerta
para todos, inclusive para o Banco Mundial, que reelabora sua doutrina à luz
das críticas e das crescentes manifestações de massa contra a implementação
deste modelo.
Um dos resultados deste processo
de reelaboração do mito do desenvolvimento é a proposta do desenvolvimento
local, ou mesmo da possibilidade, no mundo globalizado, de que ilhas de
excelência existentes nos países pobres, como as cidades de São Paulo ou Buenos
Aires, por exemplo, possam se tornar global players, independentes da
dinâmica dos Estados nacionais.
“É muito evidente que o tema do
desenvolvimento local vem sendo colocado na agenda da discussão
político-econômico-social e cultural devido ao fracasso das abordagens
macroestruturais em romper, no plano social com a desigualdade, no plano
econômico com a concentração do poder, no plano político com a declarada
insuficiência dos mecanismos e processos da democracia representativa e no
plano cultural com a folclorização trabalhada pela “indústria-cultural” como
exotismo...” comenta Francisco de Oliveira, que ao reconhecer a introdução do
tema do desenvolvimento local na agenda social mundial, pergunta: “o nível local resistirá às
avalanches globais, quando mesmo o Estado-Nação dá mostras de cambalear diante
delas, para não concordar com o “sucumbir” que já está na maioria dos discursos
sobre a globalização?”
De fato, a questão do
desenvolvimento local foi incorporada à agenda de múltiplos atores sociais
e tem se transformado em um dos
principais temas de discussão, pesquisa, e mesmo de intervenção por parte de:
governos municipais, agências estatais de desenvolvimento, ongs, universidades.
E novamente a disputa em torno do significado do conceito de desenvolvimento
local desenha distintos horizontes, limites e possibilidades.
O Instituto Pólis, uma ong
brasileira que trabalha os temas da participação cidadã, das políticas públicas
urbanas e dos governos locais, tem realizado a sistematização de experiências e
o debate sobre o alcance destas iniciativas identificadas como sendo de
desenvolvimento local desde 1995. E pôde constatar que sob a denominação
genérica de experiências de desenvolvimento local se abriga uma ampla gama de
iniciativas que, em sua maioria, mobilizam escassos recursos, buscam incidir
tanto na área social quanto na econômica, e ainda estão por ser analisadas
quanto ao efetivo impacto que produzem no ambiente local. Mas mesmo sem essa
análise mais acurada de resultados é possível dizer que as experiências
estudadas não alteram o quadro geral de exclusão social local.
Caracterizadas muito mais como um
experimentalismo difuso, estas iniciativas são entendidas como tentativas de
inserção de indivíduos nos mercados de trabalho e consumo através de projetos
de “microcrédito, verticalização da agricultura, incubadoras, programas de
marketing municipal, agências de desenvolvimento, consórcios intermunicipais,
apoio à agricultura familiar, políticas de atração de investimentos,
intervenções em cadeias produtivas e sistemas locais de produção, capacitação
de empreendedores e outros atores, criação de infra-estrutura e intervenções
urbanas”.
Num certo sentido, pode-se afirmar
que a grande maioria dos agentes que impulsionam as iniciativas de
“desenvolvimento local” o fazem não no sentido da complementariedade a projetos
de desenvolvimento nacional, mas
justamente porque este está ausente, pela falta de respostas das políticas
nacionais ao acirramento do desemprego e da crise social no plano local.
A tentativa de tornar o
“desenvolvimento local” um modelo paradigmático de solução dos problemas que a
sociedade mais inclusiva não consegue solucionar é nada mais que a reedição do
mito do desenvolvimento, que desconhece a história, desterritorializa as
experiências e ignora a importância dos atores locais portadores de distintos
projetos e interesses. A proposta pensa o local como uma comunidade com
interesses comuns que, ao somar seus esforços, consiga dar conta do desafio de
enfrentar a exclusão social. Como se no
plano local não se reproduzissem os mecanismos de poder e os interesses das
elites que, traduzidos na forma de políticas públicas, são os promotores da exclusão social.
A possibilidade do desenvolvimento
local é ainda questionada pelo perfil da ocupação do território, principalmente
nos países do Sul, onde a explosão urbana é uma realidade e a concentração da
maior parte da população se dá em regiões metropolitanas onde a maioria integra
o setor informal, o Estado se torna cada vez mais ausente e já não controla
todo o território, a violência e a criminalidade crescem assustadoramente.
Os trabalhos de pesquisa mais
recentes do Instituto Polis, reconhecendo as limitações em termos de
resultados, isto é, da conquista de um efetivo desenvolvimento local a partir
destas iniciativas em curso, apontam, no entanto, para uma nova forma de
interpretação destas experiências: “...a capacidade de mobilização e
articulação de atores sociais aparece como uma dimensão fundamental, indicando
que os aspectos sociais e políticos desempenham um papel chave nos resultados
econômicos...o que parece corroborar a idéia de que as iniciativas locais
necessitam reconhecer a existência de interesses distintos e conflitos latentes
ou potenciais...”
Esta análise se contrapõe à idéia
ingênua de que o desenvolvimento local seja uma possibilidade decorrente de uma
conjugação de esforços da comunidade (de um conceito de comunidade na qual seus
integrantes não se diferenciam, parecendo que todos têm os mesmos interesses e
objetivos), que bastaria impulsionar uma aproximação, uma aliança entre estes
atores locais, para que se dessem as condições para o desenvolvimento.
Há que se reconhecer a
diferenciação dos interesses e objetivos dos distintos atores coletivos da
sociedade civil e a dimensão do conflito que está presente em suas relações. A
possibilidade de um projeto de desenvolvimento local parece residir em uma
percepção dessas diferenças de interesses e objetivos e da adoção de um método
de negociações que traga para a arena pública estes interesses em conflito e
permita, frente aos casos concretos que se coloquem, o estabelecimento de
acordos que se fundem na afirmação do interesse público na perspectiva da
superação da exclusão social e das desigualdades sociais.
A questão do desenvolvimento
local, desta ótica, adquire uma feição muito mais política que econômica. Trata
da possibilidade da inclusão de novos atores coletivos na negociação e
definição do que se entende por interesse público e na definição de políticas
públicas que contemplem seus interesses e necessidades.
“A questão da participação popular
ganha importância porque estes setores populares têm interesses e valores a
defender, porque todos têm que poder expressar-se... porque a expressão do
conflito nesses novos espaços públicos pode ser positiva, porque a cooperação
social é necessária, e os poderes públicos necessitam de interlocutores. E,
sobretudo, porque mediante a participação é possível que se expressem os
coletivos mais débeis ou vulneráveis, os menos escutados, e é uma
responsabilidade dos governos locais dar-lhes a palavra”.
Construída desta forma, a
problematização das possibilidades do desenvolvimento local remete à questão da
participação cidadã, da democratização dos governos locais e do espaço público, da construção de um
movimento que se contraponha ao modelo neoliberal e seja portador de projetos
que afirmem a universalização dos direitos econômicos, sociais, culturais e
ambientais.
James D. Wolfensohn, Presidente do
Grupo do Banco Mundial; “O Desafio Da Inclusão”;
Discurso à Assembléia de Governadores;
Hong-Kong, China, 23 de setembro de 1997.
5 The Bank Group's relationships
with governments and institutions all over the world, and our unique reservoir
of development experience across sectors and countries, position us to play a
leading role in this new global knowledge partnership. (discurso de 1997)
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